Reflexões

DESPERDIÇAR TÁ COM NADA – PARTE I

Direto e reto: não podemos mais desperdiçar comida.

Insisto em dizer que a partir dessa era salvaremos o que restou e nos adaptaremos ao que virá. Sou realista (olha a virginiana gritando) em relação ao futuro, mas acredito no potencial de ajuste do ser humano.

Há dois meses compartilhei um pensamento com alguns amigos sobre o documentário Cowspiracy, que assisti no Netflix. Meu cérebro deu uma leve fundida. O filme investiga o silêncio das instituições ambientais sobre a responsabilidade da agropecuária na mudança climática, mas também relacionei ao desperdício.

Para dar um panorama geral que vai me ajudar a contextualizar o argumento nessa primeira parte, pontuo:

  • A população mundial foi estimada em 7,3 bilhões em 2013, será 9,7 bilhões em 2030 e 11,2 bilhões em 2100. Ou seja, nossas crianças verão um aumento de 53% no tanto de gente que mora na Terra;
  • Vivemos uma crise de produção de alimentos. 1/3 de tudo o que é cultivado-colhido-distribuído-consumido é perdido. Isso quer dizer 1,3 bilhão de toneladas de alimentos descartados todo ano. Pra ter uma visão melhor, com esse tanto de comida dá pra fazer uma montanha de 3,2 km de altura;
  • Em 2005, estimava-se que quase 50% das terras produtivas do planeta eram usadas para a agricultura e agropecuária;
  • Até 2050, a previsão da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) é que a produção alimentar deva aumentar 60% para dar conta de toda a população mundial. Voltem aos itens 2 e 3 pra tentarem entender a lógica;
  • 30% da população mundial (há estudos que contrariam o tom ameno do Banco Mundial que determina menos de 15%) vivem em extrema pobreza. O ganho médio diário é de US$ 1,25 por dia, ou seja, passam fome.

Ora, se a fome é intrínseca da pobreza e a participação dos pobres em questões sociais é, com frequência, menos expressiva que a influência de quem tem dinheiro, é impossível pensar em desenvolvimento sócio-intelectual sem considerar soluções pra que as pessoas tenham acesso a pelo menos três refeições diárias. A desnutrição é fator fundamental para a dificuldade no aprendizado e desenvolvimento, logo, posso considerar que fome é controle.

E o que isso tem a ver conosco? Tudo. É ingenuidade e até desconexão com a realidade pensarmos que nossas escolhas alimentares não interferem. A verdade está aí, exposta pra todo mundo ver. Querem um exemplo? Entre os números que falei ali em cima, mostrei que 30% da produção de alimentos se perdem todos os anos. No Brasil, onde se jogam fora 41 mil toneladas de comida todos os dias, 50% do que se produz se perde na infraestrutura, desde a colheita, manuseio, até transporte.

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O local escolhido pra nossa compra, a quantidade determinada, o uso e o descarte de nossos ingredientes devem ser repensados com urgência. Temos o péssimo hábito enquanto moradores de país emergente de achar que nossos critérios de consumo devem ser definidos pelo quanto, quando, na verdade, o por que e o de que maneira devem ser as perguntas principais.

PENSANDO EM SOLUÇÕES

Quando olho pro desperdício, vejo também uma cultura de desperdício de energia em criticar, mas que poderia ser útil pra refletir em como mudar, entendem o que eu quero dizer? Então, aqui vai a minha proposta:

Tentem identificar produtores que não gastem tanto tempo na estrada. Que tal procurar por feiras locais com produtos vindos de assentamentos e culturas familiares? Hortas no bairro (terrenos com torres de energia costumam ter horta), o senhor que vende na rua as bananas ou mandiocas que ele cultiva em casa. E comprem somente o necessário.

Divida essa informação com quem trabalha com vocês em casa, roomates, suas famílias. Façam a diferença na cadeia produtiva, evitando desperdícios desde o início. E com a sua influência. 🙂 Nos próximos textos vamos conversar sobre uso inteligente de ingredientes e descarte consciente.

Espero vê-los aqui novamente. 🙂

Um beijo!

Ana Sama