Reflexões

DESPERDIÇAR TÁ COM NADA – PARTE II

Dizem que abacaxi é problema, complicação, treta. “Maior abacaxi essa situação” porque né, quem é que gosta de descascar abacaxi? Abacaxi sem casca, na bandeja, na banca da feira. “Sem problemas, madame!”. Amém! Desperdício de alimentos sim é treta.

Um tanto de casca por aí e um tanto de possibilidade, afinal, se a gente não tocar na casca, não chega na polpa. Sem problemas a gente não entende a doçura. Problema é importante, poxa.

A fruta é praticamente uma rainha, cheia de coroa. Tá, é de espinhos. Se eu forçar um pouquinho posso fazer uma relação com o filho do cara lá de cima, mas prefiro manter a amizade. A coroa da fruta que dá um trabalho danado pra descascar e que tá meio que no meio da temporada. Se procurar, encontra. Mas tem que procurar certo. Lembra? Procura onde dá, faz o que dá. Nem sempre orgânico dá.

Esse monte de casca, um monte de lixo. Não, não. Eu vejo essência de sabor, um monte de lista em matéria de revista fitness dizendo “serve pro culote, serve pro xixi, faz ter filho, tenha filhos com o abacaxi”. Eu vejo um chá gelado feito de cascas pra tomar num desses finais de tarde quentes, com previsão de pancadas esparsas de chuva.

Coroa

Coloca aí na lista dessa receita solta: canela em pau, pouca noz moscada em pó e cravo. Só. Tem quem goste de anis, mas eu odeio anis. Só é lindo de olhar aquele trequinho estrelado, cheio de sabor esquisito. Nessa panela com água têm tanta cor, perfume e sabor que me lembram mais um tanto de coisas. Lembram casa de vó, casa limpa de tarde depois da escola. Cochilo despertado com aroma doce.

Também tem casca de tangerina. Laranja-mimosa, mandarina, poncã, laranja-cravo, mimosa, bergamota, clementina, merexica ou fuxiqueira. As duas últimas, minhas preferidas. Ô frutinha intrometida. Essa é a mesma frutinha sem vergonha que talvez seu pai descascava. Deus me livre aquele cheiro na mão, “isso nunca mais vai sair”, você pensava. A sensação do óleo da casca espirrando no nariz enquanto ele franzia a testa. Ah, importante lembrar que levar mexerica pro trabalho é também uma ótima maneira de você se tornar um funcionário inesquecível, anota aí: 1) leva a mexerica, 2) espera todo mundo voltar do almoço, 3) descasque na sua mesa, de preferência com as janelas fechadas. Risos.

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Ah, antes de colocar na água, dá uma lavada em tudo. Sabe como é, a gente não tá seguro por nada, nem do cloro na água. Tem água pra lavar a água? Enfim. Coloca tudo na panela, liga o fogo no médio, tampa e deixa lá esquentando. Ferve bem até você ficar tonto pelo perfume. Uns 20 minutos e desliga. Deixa tampado, sem pressa, os ingredientes têm que se curtir, sabe como é.

Gelou, tomou. Eu antes de gelar e tomar, eu fotografo. Com a luz certa e a temperatura ideal, o sabor fica fotogênico.

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Tem bolo também, mas esse não tem receita. E o bolo eu fiz com a polpa do abacaxi, aquela bonitinha privilegiada, tipo classe média que parcela as compras no cartão, mas ninguém viu a casca que foi tirar um pouco do salário pra pagar a fatura. Você tem uma receita boa de bolo de abacaxi? Essa não prestou, o chocolate grudou, deu tudo errado. Comemos mesmo assim. Se tiver, me conta.

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A polpa linda da fruta problemática ainda vira conserva com vinagre, açúcar, louro, pimenta preta e coentro em semente, alho e pimenta dedo de moça fervidos. É lindo e combina com um monte de prato asiático. Se você não sabe fazer nenhum, mete amendoim e shoyu num refogado de acelga, coloca o abacaxi curtido pra acompanhar e sai pela porta da cozinha falando que você fez um “cozido oriental”. Todo mundo vai acreditar, vai na minha.

Pode ser presente, adoro presentear com comida, mas ó: se você não gostar muito de quem vai receber o presente, deixa o abacaxi curtir bastante, umas duas semanas na geladeira. Aproveita e manda junto um antiácido no pacote, porque amigo, esse mimo mimoso é apenas para os fortes.

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Essa é a história da fruta que era problema, com casca de lixo. Ela era só lixo, mas agora virou história com começo, meio e fim.

Desde o primeiro texto sobre esse assunto, tive um bloqueio horroroso. O curioso é que isso acontece comigo sempre que me engajo em algo que, possivelmente, será maior que eu e demandará uma grande dedicação (momento desabafo de leve).

De qualquer maneira, dividi o assunto em três momentos essenciais, que certamente têm dezenas de outras ramificações, porém acredito que os três pilares principais para começar o combate ao desperdício são: reflexão, uso inteligente e descarte consciente. No texto de hoje quis mostrar pra vocês que aproveitar seus ingredientes quase que 100% não é coisa de bicho-grilo, não dá trabalho e você ainda pode criar um monte de receita legal e original pra compor seu cardápio com consciência. E sabe o que mais? Dá pra fazer texto bonito, porque nem de dados a gente é feito. Comida também é poesia, ora essas.

Um beijo

Ana Sama