Reflexões

E AÍ? ARTESANAL É MODA MESMO?

Cerveja artesanal é moda? Olha, eu sempre tomei a minha normal de sempre.

Bom, vamos começar do começo. Estima-se que a cerveja tenha sido criada de 8 a 11 mil anos atrás, e, de lá pra cá muita coisa mudou: tecnologia de produção, processos, cereais e outras matérias primas e também a compreensão do que acontecia com aquele caldo delicioso que além de alimentar ainda dava um grau no cidadão que consumia. Muita coisa mudou também na geopolítica mundial, impérios nasceram e caíram, guerras começaram e terminaram. Mas o que isso tem a ver com cerveja? Tudo, manolo.

O começo da história da cerveja se funde com a do pão. Quem veio primeiro vai depender de pra quem você faz a pergunta (se perguntar pra mim foi a cerveja, que eles tomavam relaxando enquanto o pão ficava pronto), mas essencialmente a humanidade parou de ser nômade para plantar cereais para se alimentar. As primeiras cervejas eram ácidas, fermentadas espontaneamente com a levedura que pairava no ar (Lambic e Gueuze) ou com adição de frutas que aceleravam o processo e agregavam sabor frutado e adocicado à bebida. Tinha teor alcoólico baixo, chegou a levar uma mistura de especiarias e ervas pra adicionar sabor e funcionar como conservante. Funcionou muito tempo como alimento e substituto para a água em cidades em que ela não era lá muito limpinha. Foi lá pelo século IX que descobriram que o lúpulo, além de trazer um sabor amargo à bebida, fazia com que as cervejas estragassem ainda menos. Entrou pra lista de ingredientes obrigatórios da Lei de Pureza alemã e figura inclusive na nossa legislação.

Em geral, as cervejas eram mais escuras e intensas em cor, já que a secagem dos maltes era feita sobre o fogo e era mais difícil de controlar, além de trazer um aroma de fumaça para a bebida (Rauchbier). Às vezes torravam demais (Stout e Porter), às vezes médio (Brown Ales). Com o desenvolvimento do coque, começou-se a ter muito mais controle da secagem do malte, que não ficava no fogo direto e nem chegava a tostar tanto, dando origem à febre das cervejas claras (Pale Ale). Na época que a Índia era colônia inglesa, foi desenvolvida uma versão para exportação que levava mais lúpulo para aguentar a longa viagem de navio (India Pale Ale).

Estima-se que foi no século XIV, quando todas as cervejas produzidas eram Ales, de alta fermentação (alta porque as células de levedura se agrupam e sobem para o alto do tanque) em que as leveduras trabalhavam em temperatura ambiente (da Europa, no caso, mais frias que a nossa), que algumas cervejas alemãs estocadas em cavernas para consumo começaram a fermentar em temperaturas muito baixas, surgindo assim a família de Lagers de baixa fermentação, cujas células se aglomeram mais na parte de baixo do tanque, que compõem boa parte dos estilos alemães. Em 1842 pra competir com a novíssima ale clara que os ingleses haviam desenvolvido, mas usando o método Lager, nasceu em Plzen, no que hoje é a República Tcheca, uma cerveja leve, clara e refrescante (Bohemian Pilsner, German Pils).

Posteriormente, com as duas grandes guerras e a Lei Seca dos EUA, o consumo de cerveja entrou em declínio, assim como o número de cervejarias abertas, tanto nos EUA quanto na Europa. Para recuperar seu prestígio e mercado, foi desenvolvida uma versão mais “amigável” para o consumidor. Fácil de beber, de baixo amargor, leve e clara, nasceu a Lager padrão (Pilsen são denominações de estilos alemães e tchecos, mais amargos, e que não se encaixam na cervejinha do verão) que representa nada menos que 90% do consumo mundial de cerveja.

Então, quando ouvir alguém falar que cerveja especial ou artesanal é modinha, muito amarga, muito esquisita, “não é cerveja de verdade”, lembre-se que é só um nome novo pro que é uma tradição milenar e que a sua “normal” do verão malemal completou 100 anos de história ainda, contra 8 a 11 mil.

Cerveja, no sentido mais abrangente possível, é uma bebida mega versátil em termos de sabor, cor, corpo, carbonatação, amargor e ainda samba na cara da sociedade enóloga por ser muito mais ágil nas harmonizações com comida que vinho. De quebra ainda é a única bebida do mundo que tem espuma persistente (eu disse persistente, que dura do começo ao fim do consumo). A lager do verão foi muito útil pra cerveja chegar ao 4º lugar de bebida mais consumida no mundo (atrás do café, chá e pasme, suco de laranja). Porém, cerveja é muito mais do que um estilo só. É como diziam no orkut, “quem se define se limita”.

Saúde!

Felipe Simões