Reflexões

VAMOS FALAR SOBRE COMIDA?

Vamos!

Comer não é simplesmente um ato com objetivo nutritivo que também causa prazer (na maior parte das vezes). Comer é tão importante e tão definidor, que em 2009 o antropólogo e primatólogo Richard Wrangham, professor e pesquisador na Universidade de Harvard, lançou o livro “Pegando Fogo – Por Que Cozinhar Nos Tornou Humanos”. No livro ele apresenta sua pesquisa de dez anos a respeito da relação entre a descoberta do fogo, a invenção do ato de cozinhar e o desenvolvimento do homem. Resumindo bastante, Wrangham afirma que aprender a usar o fogo para preparar os ingredientes disponíveis 1,9 milhão de anos atrás transformou esse indivíduo e fez o seu cérebro crescer. Surgia o homo erectus, um ser humano. E arrisco dizer que esse mesmo carinha lá atrás descobriu que um lagarto selvagem era bem mais gostoso quando era feito naquela churrasqueira improvisada, vai.

Podemos dizer, então, que cozinhar é o que nos diferencia dos animais e nos torna seres sociais. Fogo, matéria-prima, cocção, paladar, digestão. Tudo isso faz parte da nossa origem, muito antes de qualquer memória afetiva. Está em nosso DNA.

Olá, eu sou a Ana Samadello, conhecida por aí como Ana Sama e este é um blog sobre impressões, estudos, receitas, memórias e experiências, porém, acima de tudo, sobre ideias. Por muito tempo adiei a decisão de ter um espaço para contar minhas impressões sobre a comida, mas como diz Mario Quintana, “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas!”. Ou seja, melhor não esperar mais, né?

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Há seis anos me dedico exclusivamente ao universo da alimentação. Talvez eu não seja tão bem sucedida quanto eu imaginava que seria a esta altura, mas sempre mantive o coração aberto e a mente atenta às mudanças. O que observo atualmente é uma desconstrução nada sutil de padrões, seja pelo desfazer de amarras com conceitos equivocados do passado, pela volatilidade de ideias do presente ou pela falta de certezas ao sonhar com o futuro. Embora Zygmung Bauman diga que as certezas foram abolidas, não deixo de perceber o quanto a ascensão do pensamento contemporâneo provocou uma nova forma de relação entre as pessoas, um olhar mais atento ao meio-ambiente, maior participação na política, abertura para críticas ao mercado capitalista e seus desdobramentos, preocupação com os animais e com a forma que a gente come nossa comida. Observe bem, qualquer ponto que eu mencionei pode ser aplicado à alimentação. Qualquer um.

E essa tal goumertização, que graças ao bom senso parece estar com os dias contados, tentou nos afastar de nossas origens, do sentido mais simples da comida que é o comer, disfarçada de resgate de memórias. Nunca comprei essa ideia marketeira. Tentaram tornar exclusivo um dos elementos mais importantes para nossa sobrevivência, sendo que ele é tão inclusivo e tão importante para nossa história pessoal e social. Veja, isso nada tem a ver com o que transformou a forma como preparamos o alimento. Eu amo as técnicas, acho a nouvelle cuisine o máximo, invejo quem usufrui da alta gastronomia e tenho profundo respeito pelo gosto dissecado pelo monsieur Brillat-Savarin que tanto me ensinou, mas esses elementos são parte e não o todo.

Você e eu, arrisco dizer, somos o início e o fim, o todo, e que honra é poder pensar a respeito de algo tão precioso que pode, enfim, ter nos definido como seres capazes de sinapses cerebrais.

Convido você a me acompanhar nesse caderno que vai ter um pouco de tudo, desse todo universo que é a comida e o forte ato que é comer.

Bem vindo. 🙂